terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Fábula dos Porcos - Desenvolvedores de hoje


Bom, faz tempo que queria escrever um post sobre esta fábula, nem que fosse apenas para "colá-la" na íntegra aqui. Vou aproveitar para fazer uns comentários também, mas vou fazê-los antes de você ler a fábula, então se você não estiver entendendo nada, depois de ler o texto tudo fará mais sentido, ou leia primeiro a fábula depois meus comentários, ou só leia a fábula, ao

Sobre esta estória tenho as seguintes opiniões:

Estamos virando especialistas em ferramentas e tecnologia, e estamos nos esquecendo do principal: a "solução". Não falo como se estivesse de fora do grupo, falo apenas como uma das pessoas que está se dando conta dessa situação, como tantas outras já perceberam, e tantas outras que estão percebendo. Tomando um exemplo simples, hoje vemos 99% das empresas contratando "Desenvolvedores [escreva-aqui-alguma-tecnologia]". No meu caso, eu sou um "especialista" em Java, mas mais que isso, sou um desenvolvedor de soluções, e tenho me dando conta disso a pouco tempo. Vejo hoje, aquele pessoal mais velho que eu, que ficou estagnado em certas "liguagens/ferramentas", como delphi, VB, Cobol, C, etc, e não faz mais nada além daquilo, e eles reclamam: "Po, não tem mais emprego na minha área.". Mas afinal, qual é seu emprego/área? Manipulador de ferramenta, ou desenvolvedor?

Mas por que o desenvolvedor está se tornando especialista? Na verdade o que está empurrando isso, é justamente o mercado ou os empregadores. Por exemplo, as empresas agora, estão numa corrida para SOA e BPM, como se isso fosse resolver todos os seus problemas. Ao menos mostra pra "fora" que a empresa investe em sí mesma. Mas até que ponto isso é bom? Um problema que vejo, é justamente essa corrida. Conheço pessoas que entraram em empresas agora, ou a pouco tempo atrás para participar de uma reestruturação de processos e arquitetura da tal empresa. "Vamos fazer uma nova arquitetura baseada em SOA e BPM! Isso fará com que garantamos uma integração contínua de novas soluções.". Aí é que está o grande erro, BPM hoje, segundo seus conceitos básicos, requer que a empresa seja re-estudada (insight) e que os processos sejam levantados, e não que a empresa seja reestruturada, creio que esse seja o maior erro cometido hoje em cima desses conceitos.

Uma coisa importante, e que muita gente não leva em consideração, é que TI é um MEIO e não um FIM, e está fadada ao fracasso a empresa que emprega a TI desta maneira. Ela não deve atrapalhar, e sim te ajudar e te dar agilidade, ao menos é isso que se pensou no começo quando inventaram os computadores. Contudo hoje somos escravos da TI, temos que moldar nossas maneiras, e processos de acordo com a TI e não ao contrário. Tive uma experiência esses dias atrás, na verdade não foi comigo esta experiência, mas me contaram o que aconteceu, e acho que serve como um simples exemplo. Um cliente de um certo projeto, agora só pode usar Gtalk para comunicação externa, então os desenvolvedores precisariam ter acesso ao gtalk para conversar com o cliente, e AGILIZAR a comunicação, porém na empresa onde eu trabalho o uso do gtalk é bloqueado. A gerente do projeto requisitou então que fosse liberado o uso do gtalk para os desenvolvedores do seu projeto o que foi negado. Isso mostra que as pessoas trabalham para a TI, e não o contrário. Não quero dizer que IMs devam ser liberados e tudo mais, justamente por causa de poucos "nonsenses" que abusam do seu uso, e os outros 90% pagam por isso, mas digo que a TI tem que trabalhar para você, agilizar a sua vida, e não atravancá-la. Não era esse o conceito principal de quando foi criado o computador?!

Esta fábula ainda me lembrou, sobre uma vertente da Administração, que está ganhando muito espaço nos últimos anos, que é a administração do caórdico, e a administração do invisível. Esta vertente de Administração se reflete hoje nas metodologias ágeis, que nada mais é, que "ter organização no caos", e administrar variáveis caóticas. Acho que administração do caórdico vale um outro post (fica pra próxima).

Contudo, a área de TI ainda é nova em comparação com outras áreas, que existem a séculos, e dentre as décadas tem evoluído. Apenas a TI precisa olhar um pouco mais pra fora, e não tentar reescrever toda a historia própria, até chegar no ponto onde o resto das coisas estão, e acho mesmo que é isso que está sendo feito, citando o exemplo da comparação da Administração e das metodologias ágeis, o que precisa mesmo é as pessoas envolvidas prestarem mais atenção no externo, e não serem apenas especialistas. É isso que garantirá o contínuo sucesso.

A Fábula dos porcos assados
Certa vez, aconteceu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo. Os homens, acostumados a comer carne crua, experimentaram e acharam deliciosa a carne assada. A partir dai, toda vez que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque... Até que descobriram um novo método.
Mas o que quero contar é o que aconteceu quando tentaram mudar o SISTEMA para implantar um novo. Fazia tempo que as coisas não iam lá muito bem: as vezes, os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. O processo preocupava muito a todos, porque se o SISTEMA falhava, as perdas ocasionadas eram muito grandes - milhões eram os que se alimentavam de carne assada e também milhões os que se ocupavam com a tarefa de assa-los. Portanto, o SISTEMA simplesmente não podia falhar. Mas, curiosamente, quanto mais crescia a escala do processo, mais parecia falhar e maiores eram as perdas causadas.
Em razão das inúmeras deficiências, aumentavam as queixas. Já era um clamor geral a necessidade de reformar profundamente o SISTEMA. Congressos, seminários e conferencias passaram a ser realizados anualmente para buscar uma solução. Mas parece que não acertavam o melhoramento do mecanismo. Assim, no ano seguinte, repetiam-se os congressos, seminários e conferencias.

As causas do fracasso do SISTEMA, segundo os especialistas, eram atribuídas a indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deveriam, ou a inconstante natureza do fogo, tão difícil de controlar, ou ainda as arvores, excessivamente verdes, ou a umidade da terra ou ao serviço de informações meteorológicas, que não acertava o lugar, o momento e a quantidade das chuvas.
As causas eram, como se vê, difíceis de determinar - na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo. Fora montada uma grande estrutura: maquinário diversificado, indivíduos dedicados exclusivamente a acender o fogo - incendiadores que eram também especializados (incediadores da Zona Norte, da Zona Oeste, etc, incendiadores noturnos e diurnos - com especialização matutina e vespertina - incendiador de verão, de inverno etc). Havia especialista também em ventos - os anemotecnicos. Havia um diretor geral de assamento e alimentação assada, um diretor de técnicas ígneas (com seu Conselho Geral de Assessores), um administrador geral de reflorestamento, uma comissão de treinamento profissional em Porcologia, um instituto superior de cultura e técnicas alimentícias (ISCUTA) e o bureau orientador de reforma igneooperativas.

Havia sido projetada e encontrava-se em plena atividade a formação de bosques e selvas, de acordo com as mais recentes técnicas de implantação - utilizando-se regiões de baixa umidade e onde os ventos não soprariam mais que três horas seguidas.
Eram milhões de pessoas trabalhando na preparação dos bosques, que logo seriam incendiados. Havia especialistas estrangeiros estudando a importação das melhores arvores e sementes, o fogo mais potente etc. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, alem de mecanismos para deixa-los sair apenas no momento oportuno.
Foram formados professores especializados na construção dessas instalações. Pesquisadores trabalhavam para as universidades para que os professores fossem especializados na construção das instalações para porcos. Fundações apoiavam os pesquisadores que trabalhavam para as universidades que preparavam os professores especializados na construção das instalações para porcos etc.
As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar triangularmente o fogo depois de atingida determinada velocidade do vento, soltar os porcos 15 minutos antes que o incêndio médio da floresta atingisse 47 graus e posicionar ventiladores gigantes em direção oposta a do vento, de forma a direcionar o fogo. Não é preciso dizer que os poucos especialistas estavam de acordo entre si, e que cada um embasava suas idéias em dados e pesquisas específicos.

Um dia, um incendiador categoria AB/SODM-VCH (ou seja, um acendedor de bosques especializado em sudoeste diurno, matutino, com bacharelado em verão chuvoso) chamado João Bom-Senso resolveu dizer que o problema era muito fácil de ser resolvido - bastava, primeiramente, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então numa armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor - e não as chamas - assasse a carne.

Tendo sido informado sobre as idéias do funcionário, o diretor geral de assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete, e depois de ouvi-lo pacientemente, disse-lhe: "Tudo o que o senhor disse esta muito bem, mas não funciona na pratica. O que o senhor faria, por exemplo, com os anemotecnicos, caso viéssemos a aplicar a sua teoria? Onde seria empregado todo o conhecimento dos acendedores de diversas especialidades?". "Não sei", disse João. "E os especialistas em sementes? Em arvores importadas? E os desenhistas de instalações para porcos, com suas maquinas purificadores automáticas de ar?". "Não sei". "E os anemotecnicos que levaram anos especializando-se no exterior, e cuja formação custou tanto dinheiro ao pais? Vou manda-los limpar porquinhos? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano tem trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver tudo? Heim?". "Não sei", repetiu João, encabulado. "O senhor percebe, agora, que a sua idéia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? O senhor não vê que se tudo fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução ha muito tempo atrás? O senhor, com certeza, compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotecnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas! O que o senhor espera que eu faça com os quilômetros e quilômetros de bosques já preparados, cujas arvores não dão frutos e nem tem folhas para dar sombra? Vamos, diga-me?". "Não sei, não, senhor". "Diga-me, nossos três engenheiros em Porcopirotecnia, o senhor não considera que sejam personalidades cientificas do mais extraordinário valor?". "Sim, parece que sim". "Pois então. O simples fato de possuirmos valiosos engenheiros em Porcopirotecnia indica que nosso sistema é muito bom. O que eu faria com indivíduos tão importantes para o pais?" "Não sei". "Viu? O senhor tem que trazer soluções para certos problemas específicos - por exemplo, como melhorar as anemotecnicas atualmente utilizadas, como obter mais rapidamente acendedores de Oeste (nossa maior carência) ou como construir instalações para porcos com mais de sete andares. Temos que melhorar o sistema, e não transforma-lo radicalmente, o senhor, entende? Ao senhor, falta-lhe sensatez!". "Realmente, eu estou perplexo!", respondeu João. "Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia dizendo por ai que pode resolver tudo. O problema é bem mais serio e complexo do que o senhor imagina. Agora, entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua idéia - isso poderia trazer problemas para o senhor no seu cargo. Não por mim, o senhor entende. Eu falo isso para o seu próprio bem, porque eu o compreendo, entendo perfeitamente o seu posicionamento, mas o senhor sabe que pode encontrar outro superior menos compreensivo, não é mesmo?".

João Bom-Senso, coitado, não falou mais um "a". Sem despedir-se, meio atordoado, meio assustado com a sua sensação de estar caminhando de cabeça para baixo, saiu de fininho e ninguém nunca mais o viu.

6 comentários:

Vitor Fernando Pamplona disse...

A maioria dos profissionais infelizmente não está nem aí para o produto, estão mais preocupados na tecnologia.

Juliano D. Carniel (jujo) disse...

Eu acho que a maioria dos profissionais estão preocupados em estar empregados. O mercado hoje exige isso, exige que vc seja especialista em alguma tecnologia e/ou ferramenta. Dai vc vê o porque do fracasso da maioria dessas empresas de consultoria a fora, tirando outros fatores também, mas não vem ao caso.

Resumindo uma boa parcela de culpa é dos próprios desenvolvedores sim, mas as empresas tem uma grande parcela neste meio também.

Luca Bastos disse...

Sobre GTalk e IMs em geral...

Há muitos anos atrás eu gerenciava uma equipe de 17 desenvolvedores em várias linguagens (Java, Delphi, C/C++ e Clipper).

Andava pelas salas e via quase todos namorarem pelo MSN (o que pensando bem não é tão ruim assim desde que sem abuso).

Então eu era meio contra o MSN.

Só que eu sempre fui contra documentar qualquer coisa em qualquer outro formato que não fosse HTML ou PDF. Então iniciei um projeto para substituir por HTML tudo que se fazia com uma meleca de produto que a empresa comprou chamado HTMLHelp que gerava aquivos de HELP de mais de 10Mb (enormes para a época ).

O desenvolvedor responsável por mostrar o help em html dentro da aplicação desktop Java 1.1.6 (só com AWT) fez sua parte em 30 minutos. Putz, eu fiquei abismado.

Como ele conseguiu?

Simples, na sua rede de amigos do msn, habia um amigo que já tinha feito a mesma coisa em Delphi e passou para ele. Com F1 o Java chamava o Delphi e mostrava o Help bonitinho.

Depois daquele dia nunca mais reclamei com a equipe sobre o uso do msn.

Depois disto participei de vários projetos onde o msn (ou similar) foram ferramentas importantíssimas para unir equipes multi nacionais. Mesmo com a equipe totalmente local sempre há algume desenvolvedor que está no cliente e precisa de suporte.

Proibir GTalk, msn e IMs em geral é bobagem.

Juliano D. Carniel (jujo) disse...

Exatamente Luca! Concordo em numero genero e grau.

O que eu mais sinto falta mesmo dos IMs é justamente a troca de informações entre amigos. Muitas vezes precisei de ajuda e também dei ajuda para amigos, com um certo problema. Hoje, se não consigo resolver durante o trabalho, chego a noite em casa e falo com amigos para ver se alguém tem alguma idéia sobre o problema, e até agora em 100% das vezes as coisas se resolveram assim. Por isso eu sinto falta de IMs no trabalho.

Mas eu tenho também que admitir que tem muita gente que não sabe aproveitar a liberdade que tem, e quando fica preso sente falta das horas de sol. No geral, falta um pouco de educação e digamos até ética profissional.

Outro problema está em justamente, em fazer a TI trabalhar para você. Neste caso o que acontece normalmente é que chega a informação nos "cabeça la de cima" que tem muita gente que não trabalha porque fica o dia inteiro no IM. O "cara la de cima" não pensa duas vezes e diz: "Corta de todo mundo então".

E assim vivemos!

Clayton K. N. Passos disse...

O autor afirma que a TI deve auxiliar a empresa, servindo como ferramenta para aumentar produtividade, que se a TI for utilizada como fim e não como meio é algo ruim. - Concordo com ele.

Mais que isto, acredito que a culpa não é unicamente dos desenvolvedores, mas também dos seus gerentes e diretores. Pois, estas figuras administrativas é que tomam as decisões, eles é que deveriam ter uma visão maior no sentido horizontal e vertical (mais em quantidade e mais em distância(futuro)) de forma imparcial, não se deixando levar pela própria naturesa humana que é avesa a mudanças.

Já presenciei diversas vezes (já aconteceu comigo) onde o técnico fez algumas conciderações, sobre falhas do precesso atual, sobre falhas na forma como estava se trabalhando com a ferramenta, ou até mesmo sobre os novos direcionamentos da empresa, e a única coisa que o administrativo sabia dizer é: "nós precisamos disso, se não for assim nós perdemos o cliente".

Acabou que nós executamos exatamente como o administrativo havia nos instruido, fizemos a lambança que nos foi pedido, e hoje o cliente quer quebrar o contrato porque tudo que fizemos foi uma grande merda, afinal o SISTEMA não se adequava a realidade da empresa, falhava em diversos pontos deixando a empresa na mão.

Concordo 110% que TI deve ser um meio, e não o fim. Que a TI deve se moldar a realidade e não a realidade deve se moldar a TI.

Também concordo que muitos estão se tornando especialistas em uma ferramenta, quando deveriam se tornar um especialista em soluções.

Mas a relação entre Culpa X Cagada é complexa, pois há muitas variáveis a se analisar.

Ah! também concordo com IMs são feramentas excelentes para a própria empresa, trazendo até mesmo novas soluções ao desenvolvimento problemático, MAS TEM QUE SER POLICIADO, pois existe muito abuso. Conheço pessoas, que se o gerente não fica no pé o fulano fica o dia todo vendo e-mail de piadinha e falando bobagens no msn. -Isso é produtivo? Acho que não.

Japz-j disse...

Opa! vou colocar um link para este post no meu blog, ok?

Bom... já esta lá! Se tiver algum problema, por favor me avise.